Quando o suficiente nunca é suficiente: Epicuro, Marx e a vida sob o imperativo da produtividade
Resumo
Este artigo investiga por que a tranquilidade, embora desejada, se torna difícil de realizar na sociedade contemporânea. Parte-se da hipótese de que Epicuro oferece uma concepção normativa de vida boa, fundada no prazer, na prudência, na autossuficiência e no limite dos desejos, enquanto Marx permite compreender as condições sociais que subordinam produção, trabalho e tempo à valorização do capital. Por meio de pesquisa bibliográfica, qualitativa e de orientação hermenêuticoconceitual, argumenta-se que o capitalismo não elimina o prazer, mas favorece um hedonismo da inquietação: prazeres rápidos, comparativos e reiteráveis, cuja satisfação deve conduzir a uma nova falta. A aproximação evidencia que a dificuldade de experimentar o suficiente como suficiente não é apenas um problema de disciplina individual. Conclui-se que práticas epicuristas podem constituir formas relevantes de resistência cotidiana, mas não substituem a transformação das condições que distribuem desigualmente tempo, segurança e possibilidade de repouso.

